Recuperação econômica e as oportunidades previstas, caso haja vacina

A Federação Brasileira das Redes Associativistas e Independentes de Farmácias (Febrafar) e a Associação Brasileira de Distribuição e Logística de Produtos Farmacêuticos (Abradilan) promoveram na última quinta-feira (06/08), uma palestra virtual interativa com o economista Luís Artur Nogueira e os presidentes da Febrafar, Edison Tamascia, e da Abradilan, Vinícius Andrade. O especialista fez uma análise imparcial dos impactos, desdobramentos da pandemia e recuperação econômica . Mostrou os bastidores com bom humor e linguagem simples e de fácil entendimento.

 No início de sua fala, ele citou quatro grandes incertezas que ainda afetam a economia mundial.

  • Mundo fechado: primeira onda de coronavírus fez com que a reação dos países fosse o isolamento global, que derrubou a economia global e a colocou em uma recessão. A grande incerteza é: haverá ou não uma segunda onda de coronovírus que vai obrigar os governos a fecharem novamente suas economias? A resposta dessa pergunta é que vai definir o êxito ou não da recuperação econômica.
  • Onda de protestos: começou nos EUA, com motivo legítimo no combate ao racismo. A partir daquela onda inicial, outras ondas vieram em vários países e claro que uma onda de protestos gera incertezas econômicas. “A gente sabe como os protestos começam, mas nunca sabemos como eles terminam”, disse Nogueira.
  • Eleição americana: a disputa entre Donald Trump e o democrata Joe Biten. Embora hoje, Joe Biten seja o favorito, há uma grande incerteza. Não se pode menosprezar a capacidade do presidente americano de usar a máquina pública a favor dele. Ele vai fazer de tudo para tentar ganhar a eleição, se preciso, vai causar uma guerra militar contra algum país. É sabido que tem uma parcela do eleitorado americano que adora guerra. Guerra dá votos. Trump não vai barrar o caos, se isso significar para ele alguma chance de ser reeleito. Portanto, a eleição americana, até que seja concluída, é uma fonte de incerteza na economia global.
  • Guerra digital: entre as duas maiores potências mundiais – EUA X China. Trata-se uma guerra tecnológica, uma guerra pela supremacia do 5G da internet ultrarrápida. Obviamente, isso tem reflexo no comércio. É também uma guerra comercial, em que um país sobretaxa o outro. Quando se tem duas economias sobretaxando seus produtos, a economia global fica, naturalmente, desaquecida.

Ao somar essas quatro incertezas, é possível ter uma justificativa plausível para a previsão de que o mundo terá uma retração em média, da sua economia, de 5% em 2020. A boa notícia, é que no ano que vem se espera a recuperação econômica, com taxa prevista de 5%. “O crescimento do mundo é o famoso “V”: cai rápido de um lado, sobre rápido de outro, ou seja, o mundo desaba em 2020 e volta a crescer em 2021, mas o que vai determinar o êxito ou não desse “V” mundial, é, em primeiro lugar, a capacidade da China de recuperar sua economia. “Na minha visão, a China terá um leve crescimento de 1% a 2%. Claro que para os padrões chineses que cresciam a 7%, 8%, 9%, 10%, nos últimos anos, crescer apenas 1% ou 2% é muito pouco, mas não é recessão. Mas, no ano que vem, a locomotiva chinesa deve crescer 8%. Para o Brasil isso é uma ótima notícia, dado que a China é nosso principal parceiro comercial. Por outro lado, nós temos a maior economia do mundo, EUA, com enorme tombo este ano. Prevejo uma retração da economia americana de 6%, portanto, os EUA vão cair mais do que a média global de 5%. Para 2021, a economia americana pode ter um crescimento de 4,5%, ou seja, não recupera tudo”, analisou Nogueira.

Quais os impactos para o Brasil?

O dólar disparou, as Bolsas despencaram, mas o dólar já deu uma acalmada e as Bolsas já estão em um processo de recuperação, tanto de que a Bolsa de Valores de São Paulo já ultrapassou o patamar simbólico de 100.000 pontos.

Os investidores voltaram a comprar ações no Brasil principalmente porque o País vislumbra um processo de recuperação econômica, ancorado em uma vacina que deverá surgir nos próximos meses, até o final do fim do ano, no mais tardar, início do ano que vem. Mas, se os estudos tiverem uma reviravolta e não funcionarem, o otimismo do mercado financeiro automaticamente vai se transformar em um pessimismo.

Outro efeito do coronavírus visto no Brasil, foi o fechamento de fábricas e lojas, felizmente não é a realidade do setor farmacêutico, que é essencial e não deixou de atender a população em nenhum momento, mas essa foi uma realidade vivida por grande parte da indústria e do varejo. Algumas áreas que fecharam temporariamente, já estão reabrindo, outras, infelizmente, fecharam de forma definitiva, principalmente por falta de crédito. O setor bancário em muitos casos, disse não ao pequeno empresário.

Mais um impacto foi uma ampla massa de trabalhadores em casa trabalhando home-office. Em muitos casos teve redução de salário e de jornada. Isso diminuiu a renda disponível da população, sem falar na onda de demissões. Nogueira lembrou que há um mar de desempregados no Brasil, pessoas que nesse momento, não têm renda nenhuma.

Queda abrupta do poder de arrecadação do poder público não pode ser esquecida. Isso é importante porque um governo quebrado não consegue investir na economia. Se não há atividade econômica, não há o que tributar e além disso, se há uma recessão, o efeito prático é que o empresário fica inadimplente, dado que ele não tem dinheiro em caixa.

Houve ainda, o engavetamento de uma boa agenda de reformas do ministro Paulo Guedes, já que o Congresso Nacional priorizou, no primeiro semestre, votar as medidas emergenciais que tinham objetivo de salvar a economia brasileira de um colapso, como a aprovação do auxílio emergencial de R﹩ 600,00. “Graças ao auxílio emergencial, a economia brasileira não entrou em colapso. Agora, no segundo semestre, temos espaço importante para voltar a debater e a votar as propostas de Guedes. Já tivemos um exemplo concreto disso que foi a aprovação do novo marco regulatório do saneamento básico, que vai movimentar bilhões de reais na economia, e mais que isso, vai levar saneamento básico para a população mais carente, aliviando inclusive os problemas de saúde.”

Um grande problema que aconteceu no meio disso tudo e que poderia ter sido evitado, foi a antecipação lamentável da disputa política de 2022, que causou efeitos negativos em todos os lados. “O presidente da República errou, os governadores erraram, os congressistas erraram, e os ministros do Supremo Tribunal Federal também erraram. O que faltou foi uma união política de todos em prol do Brasil, para que pudéssemos ao mesmo tempo combater a pandemia e salvar a economia, agilizando a recuperação econômica”.

O economista citou o ápice do caos político, quando houve um rompimento entre o presidente Jair Bolsonaro e o seu então ministro, mais popular de todos, Sérgio Moro. “A tensão política foi muito forte em Brasília e se agravou, mas de lá pra cá, em particular nas últimas semanas, a tensão política se acalmou e a crise institucional não se consolidou, sobretudo pelo apoio feito com o ‘centrão’”, ressaltou.

Nogueira prevê um formato de crescimento para o Brasil como o de um “visto”, de um “OK”, um “V” aberto, que cai muito rápido e vai subindo gradativamente. “O Produto Interno Bruto (PIB) cai entre 6% e 7%. A boa notícia é que a recuperação começa para valer ano que vem, podendo crescer 3,5%; e em 2022, pode crescer mais 3%.”

Essa é a realidade dentro de um ciclo normal da economia brasileira, mas algumas premissas são fundamentais para que isso aconteça. Nogueira pontuou:

  • Vacina para 2021: se não houver vacina, não haverá crescimento de 3,5% ano que vem. Lembrando que esse crescimento começa lentamente agora, no segundo semestre. Fundo do poço já passou, foi em abril, maio e junho de 2020, que teve queda de 10%.
  • Ajuste nas contas públicas: o rombo para 2020 é de R﹩ 800 bilhões, cifra equivale à economia de dez anos que a Reforma da Previdência iria nos proporcionar. A partir do ano que vem o governo deve voltar a cuidar com carinho das contas públicas, até porque, se isso não acontecer, vai ser insustentável manter os juros baixos no Brasil. A taxa Selic é a menor da história: 2% ao ano.
  • Reformas estruturais: saneamento básico, Reforma Tributária, Reforma da Previdência, privatizações, concessões de infraestrutura.
  • Estabilidade política e institucional: não há clima econômico para ter crescimento se não houver paz política e institucional. Ambiente precisa ser democrático e saudável na política daqui para frente.

Ao analisar a atividade varejista, ele revelou que as farmácias estavam com sinal amarelo em junho último, com queda de 3,9%. Os supermercados, com expansão de 15,6%. Dois meses depois, farmácias diminuíram essa queda, foram para 3%; e os supermercados aumentaram esse lucro, para 16,3%. “Não importa o setor que você olhe, ou está estagnado (turismo, bares e restaurantes), ou está melhorando (vestuário, farmácias e supermercados). Nenhum setor do varejo está piorando nos últimos dois meses.”

Para ele, o desafio está em desvendar o novo consumidor pós-pandemia, com a recuperação econômica. Ele fez uma provocação: “Esse tal novo normal existe? Foram abertos cafés em Pari; pubs, em Londres; bares no Leblon, no Rio de Janeiro; lojas em São Paulo; e o que vimos? Estabelecimentos lotados, consumidores sem máscaras, aglomerados. Cadê o novo normal? Será que o novo normal é tão novo assim? E, se ele for, quem conseguir desvendar esse novo consumidor, certamente, sairá na frente, nessa crise.”